Nota pública sobre o ENEM 2020

Nota pública sobre o ENEM 2020

O mundo passa, neste momento, por uma crise sem precedentes. Nas últimas semanas, com o avanço da pandemia de Covid-19, assistimos às nações mais desenvolvidas adotarem medidas e restrições extremas que até pouco tempo seriam impensáveis. Governos, instituições, empresas, famílias e indivíduos viram-se obrigados a rever todo o seu calendário de atividades, desde as menos urgentes àquelas consideradas imprescindíveis.

O Brasil foi atingido por essa crise e hoje a pandemia afeta todas as Unidades da Federação. Medidas importantes foram tomadas para conter o avanço do vírus, entre elas a paralisação das atividades escolares presenciais em todo o país. Mesmo nas hipóteses mais otimistas, o retorno dos milhões de estudantes às salas de aula é imprevisível. O Brasil se encontra ainda em franca escalada da curva de contágio, o que tem estendido o período de isolamento social recomendado. Além de comprometer o calendário escolar, tal situação pode afetar o processo de aprendizagem e ampliar a desigualdade de oportunidades educacionais.

As ações tomadas pelas diferentes redes de ensino para tentar mitigar os danos da interrupção das aulas presenciais variam substancialmente, em função de sua capacidade de organização e, sobretudo, dos recursos financeiros e tecnológicos disponíveis. As redes públicas e particulares têm buscado suprir a ausência do espaço da sala de aula com atividades remotas de educação a distância, como a distribuição de materiais digitais e impressos, o uso dos canais de TV educativos para transmitir parte do conteúdo curricular, entre outras. Embora louváveis, tais medidas variam intensamente e, com isso, estudantes de escolas públicas e privadas, em diferentes regiões do país, estão hoje submetidos a realidades profundamente distintas. Alguns alunos puderam dar continuidade às atividades escolares em ambiente virtual, amparados pela condição socioeconômica que permite o acesso à tecnologia e outros recursos pedagógicos. Outros, a maioria, infelizmente não têm o mesmo privilégio. As enormes desigualdades da educação brasileira podem ser ampliadas diante das circunstancias impostas pela pandemia, cujos impactos econômicos também deverão afetar muitas famílias dos estudantes.

Neste contexto, a manutenção do cronograma do Exame Nacional do Ensino Médio/ENEM 2020 previsto para o inicio de novembro, poderá prejudicar o futuro dos estudantes mais vulneráveis do país e ampliar as desigualdades de acesso ao ensino superior. Por causa do coronavírus, vários países, comprometidos em garantir a adequada participação dos estudantes, adiaram seus exames nacionais de acesso ao ensino superior, como por exemplo o Gaokao na China, o SAT nos EUA, o BAC na França, o A Level na Inglaterra, entre outros.

Considerando essas questões, e dedicada à sua missão de promover reflexões e propostas que visam a melhoria da educação brasileira, a Associação Brasileira de Avaliação Educacional (ABAVE) manifesta-se em favor do adiamento do calendário do ENEM 2020, com a postergação das datas de inscrição e realização da prova, como já recomendado pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação (CONSED) em nota pública.

Campinas, 11 de abril de 2020

Maria Helena Guimarães de Castro
Presidente – Associação Brasileira de Avaliação Educacional

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